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domingo, 28 de abril de 2019

29/04 VEM DEBATER COM A GENTE!

Sala de aula é realmente um espaço lindo! Como são valiosos os momentos em que as pessoas "se dão conta" das coisas e levam aquilo consigo, reverberando por muito tempo aquela mensagem que precisa ser mais do que ecoada! Lembrei das escritas sobre preconceito de tempos atrás e de como podemos trabalhar e trazer à luz da reflexão construtiva esta abordagem. Nestas postagens, trabalhava a questão racial e hoje, neste post conto uma daquelas "tomadas de consciência" que aquecem nosso coração professor.
Debatíamos em sala de aula um video da neurocientista Suzana Herculano, que abordava as transformações no cérebro adolescente. Neste debate, veio a questão da preferencia sexual e da opção sexual. Os alunos contribuíram muito na dinâmica da aula e a questão da repressão das opções sexuais veio a tona, pois as pessoas não se sentem "permitidas" por suas questões familiares, religiosas, sociais...enfim, reprimem suas preferências e opções em nome do que a sociedade (ainda, infelizmente) julga como correto. Notei que traziam muitos casos de relato em que a homofobia foi presente na vida deles, e posicionaram-se sobre o preconceito sexual, de gênero, racial, religioso, social, racial.
No final da aula, perceberam como a aula mudou de rumo sem aquele tom "ameaçador" de doutrinação ou lavagem cerebral que muitos temem e imaginam que estes assuntos "polêmicos" possam configurar nas salas de aula. Foi um debate franco e aberto onde todos puderam ser escutados. 
Até que alguém disse "quando a gente fala desses assuntos tabus, quem sente estes preconceitos pode ser escutado. Pode se sentir parte, e dizer que a existência dele ou do jeito que ele é não é um jeito errado, nem proibido, nem ruim...é importante isso, né?"
E a professora, calada, sorri e sente que o rumo da aula, que mudou totalmente, era o rumo que precisava ser tomado. E que cada vez mais venham estas construções despretensiosas e naturais, plenas de significado para alunos e professores.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

01/04 AS CORES DO MUNDO

Rosa para meninas, azul para meninos. A coisa ficou preta. Verde de fome. Azul de frio. Branco de medo. Mundo Cor-de Rosa. Entrou no vermelho. Ficou tudo azul.
Comumente as cores podem ser utilizadas em nosso cotidiano para referir sentimentos ou designar especificidades de alguma situação. Algumas vezes essas expressões são carregadas de preconceitos e acabam reforçando situações que buscamos, em um mundo ideal, combater.
A questão que hoje destaco já discuti em outros momentos. Já trabalhamos aqui neste blog com a questão de etnias, gênero, busca por igualdade de oportunidades e direitos e seguimos observando e pensando em meios de seguir no mundo com estes preconceitos, combatendo-os e ensinando para que estes ciclos não se repitam. 
Em uma época em que o conservadorismo sente-se autorizado a multiplicar velhas crenças, velhas ideias e multiplicar o preconceito que já existe enraizado na nossa cultura, lutamos com passos de formiguinha, mas sempre lutando. Não nos cansamos de pensar diferente e elaborar esse pensamento para fora de nossas caixas, extravasando nosso pensar e alcançando o outro, a outra mente, a  outra pessoa. 
Trabalhar com Educação, trabalhar com pessoas, trabalhar com mentes em desenvolvimento é tarefa das mais exaustivas. Não somente pela carga de trabalho que excede, muitas vezes, nosso horário dentro da escola (sim, trabalhamos muito em nossas outras horas diárias). Mas, principalmente pela tarefa que é inerente ao nosso fazer: interagir, questionar, desafiar.
Nesta postagem a escrita foi motivada por um aluno que me apresentou uma nova cor: "a cor de porco". Cor de porco é aquela cor que era conhecida como "cor de pele". Nunca mais vou esquecer da cor de porco. Alguns porcos poderão reivindicar a denominação, pois não se sentem representados pela cor que os denomina. Outros, até gostarão ao saberem que existe uma cor especifica para lhes significar. Antes cor de pele, agora cor de porco. Para mim e para o aluno será assim. Porque, segundo ele, cor de pele "não tem na caixa de lápis". Cada dia seguimos desconstruindo para nos fortalecermos. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

29/03 PIPES OF PEACE

Hoje reinicio este blog com uma motivação especial: iniciar a última etapa da Graduação em Pedagogia a Distância. Paralelamente a estas últimas postagens, que visam fazer uma revisitação, um retrospecto dos aprendizados e aquisição de novos, o Trabalho de Conclusão de Curso precisa ser realizado. De fato, os meses seguintes só me mostram que a carga de trabalho será maior que a usual, assim como a ansiedade e as angústias costumeiras desta etapa.
Hoje, deixar os filhos na escola foi um pouco amedrontador. Hoje, ir trabalhar também foi um pouco mais difícil. Depois do atentado na escola em Suzano, uma ameaça de um ato semelhante nas escolas de Porto Alegre deixou a cidade toda em alerta. Quando o atentado aconteceu em Suzano, a comoção entre alunos e professores foi notória, nos deixando com o sentimento de que "poderia ter sido em qualquer escola". Quando pensamos assim, nos incluímos nas prováveis vítimas, nos colocamos no alvo e passamos a pensar em estratégias de sobrevivência e resgate para uma situação inesperada como esta.
O lugar/ tempo/ estado Escola deixa de ser o local de de vida e sonhos e passa a ser medo. Resistência é uma palavra que não cabe, pois não temos forças para resistir quando a ameaça está conosco, a espreita, esperando o momento oportuno. 
No cenário atual do Brasil, com a violência, intolerância e estímulo ao armamento em evidência, nosso trabalho de luta dentro das escolas passa a ser, além de oferecer condições de aprendizado, convivência saudável e segura, estímulo ao pensar e a autonomia, ainda precisa dar conta de uma luta muito desleal: com os sentimentos que nossos jovens carregam.
Esse embate torna-se desleal pois é, muitas vezes, inacessível, intocável, ou propositalmente incubado pois qualquer pensamento contrario ao senso comum poderia ser rejeitado. Muitas vezes escrevi sobre a autoestima, autoimagem e questões da agressividade na escola. E cada vez mais me convenço de que precisamos investir na saúde emocional destas crianças e jovens. Cada dia mais reclusos em seus próprios pensamentos, muitas vezes equivocados, sem trocas ou perspectivas de diálogo e pensamento crítico da realidade e de suas próprias ideias.Cada dia mais propensos a acreditar na inviabilidade de mudanças, ou na irrelevância da própria vida. Cada dia mais informados sobre superficialidades, sem interagir com a premissa básica do diálogo: o outro. 
Uma juventude que não sabe o valor e o poder que tem. Possuem informações e meios muito mais disponíveis para edificar pensamento realmente transformadores. Ao mesmo tempo, se deixam levar por suas angustias e dores internas, as quais aprisionam, escondem e alimentam. 
É como morrer de inanição em um banquete. Muitos morrem no sentido biológico, outros seguem em vida, mas já mortos.  
Hoje foi difícil ir para a escola. Hoje foi difícil não pensar em Suzano. Lá, não foram 11 mortos. Dois já estavam mortos.
"All round the world
Little children being born to the world
Got to give them all we can till the war is won
Then will the work be done
Help them to learn (help them to learn)
Songs of joy instead of burn, baby, burn, (burn, baby burn)
Let us show them how to play the pipes of peace
Play the pipes of peace"

(Pipes of Peace, Paul McCartney)





segunda-feira, 19 de novembro de 2018

19/11 JOVENS NÃO ADULTOS E ADULTOS NÃO JOVENS.

Na experiência do estágio didático, no qual leciono no turno da noite em uma turma de Jovens e Adultos (EJA), deparei-me com situações bastante diversas daquelas que vivencio nas turmas regulares em que atuo no turno da tarde. O primeiro choque foi quando me vi em uma turma reduzida, mas não por isso, desinteressada. Bastante participativos e atuantes no âmbito de querer seu desenvolvimento e aprendizado, buscando naquelas aulas noturnas uma nova perspectiva ou uma saída para um ciclo que não mais desejam em suas vidas: do fracasso. No texto de hoje mencionarei três alunos: Uma de idade avançada e outros dois adolescentes. Na idade avançada (55 anos), a experiência de vida a traz para a escola em busca de oportunidades que “deixou escapar” ou que “não teve”, lhe foram “tiradas”. Na idade adolescente, a perspectiva é de que sua presença naquela turma é a consequência de atrasos que poderiam, sim, ter sido evitados fossem outros comportamentos, situações ou encaminhamentos dados àqueles jovens.
Nessa diversidade, retorno ao texto em que discutia a situação e caracterização da EJA no Brasil (JOVENS E ADULTOS EM SALA DE AULA). A prática da EJA é, de fato, um modo diferente de atuar, de olhar e de pensar o aprendizado e os próprios alunos. Devemos considerar essa particularidade no processo de ensino, bem como saber avaliar a aprendizagem dos alunos.
É heterogêneo o modo de pensar nessas práticas e focar em objetivos comuns, mas mesmo que estejam ali por trajetórias diferentes, têm metas finais claras e que não esmorecem. Embora o desânimo tome conta, e relatam isso, acreditam que estão onde deveriam estar, fazendo o que deveriam fazer, para seguir em frente e deixar a posição da inércia. “O adulto está inserido no mundo do trabalho e das relações interpessoais de um modo diferente daquele da criança e do adolescente. Traz consigo uma história mais longa (e provavelmente mais complexa) de experiências, conhecimentos acumulados e reflexões sobre o mundo externo, sobre si mesmo e sobre as outras pessoas. Com relação a inserção em situações de aprendizagem, essas peculiaridades da etapa de vida em que se encontra o adulto fazem com que ele traga consigo diferentes habilidades e dificuldades (em comparação com a criança) e, provavelmente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e sobre seus próprios processos de aprendizagem” (OLIVEIRA, 1999). Os jovens que venho convivendo apresentam um olhar mais otimista, mas também trazem consigo uma aura de “cansaço”, ou pela situação ou pela sensação de tempo perdido que já mencionam sentir. “Como o adulto anteriormente descrito, ele é também um excluído da escola, porém geralmente incorporado aos cursos supletivos em fases mais adiantadas da escolaridade, com maiores chances, portanto, de concluir o ensino fundamental ou mesmo o ensino médio. É bem mais ligado ao mundo urbano, envolvido em atividades de trabalho e lazer mais relacionadas com a sociedade letrada, escolarizada e urbana (OLIVEIRA, 1999).
É importante nestes sentimentos, encontrar pontos de acordo para que as aulas sejam voltadas para a aprendizagem deles, em qualquer faixa do desenvolvimento em que se encontrem. Que suas dificuldades sociais, culturais ou biológicas não sejam impedimento neste processo que se direciona para este público. A EJA é um momento oferecido para a educação, é uma oportunidade, um resgate e uma obrigação para com estes cidadãos.

REFERÊNCIA:

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

08/10 BEM DE PERTO

Um dia alguém me disse que eu seria uma ótima psicóloga. Que apenas ao permitir o outro falar, ou ao escutar, já ajudava bastante. Fato é que, numa situação assim não me limito apenas à escuta, mas também faço pequenas intervenções que, nem sempre, são o que as pessoas esperam ouvir. Não meço palavras para agradar, tampouco dar razão para os sentimentos que as pessoas me apresentam, caso eu não concorde. Normalmente respondo com uma pergunta, com uma observação que não fora antes percebida. Acredito que por isso tenham pensado que eu seria uma "ótima psicóloga".
Entre tantas outras observações, um dos fatos que me aproxima muito a Educação de Jovens e Adultos (EJA) é a possibilidade de ter um contato com a vida desses alunos, possibilitando trocas, reflexões. Com crianças isso também aconteceria, mas o contato com adultos traz essa facilidade, empatia e aproximação das realidades. 
Hoje, somente uma aluna compareceu. Ontem não foi à aula, disse-me hoje que faltou porque estava muito cansada. Sentamos e conversamos, começou a contar sobre seus filhos, seus netos. Tem 5 filhos, uma das filhas é também aluna da EJA. Na verdade, o assunto iniciou quando falávamos sobre a falta de água que ocorreu hoje no bairro. Disse-me que desde cedo já faltava, conseguiu guardar água ao notar que se enfraquecia o fluxo. Mencionou tantos aspectos de sua vida: sua casa, a casa dos filhos, os netos, fotos dos netos. Mencionou que ama muito a todos, que são a razão de sua vida, que são lindos. Nessa história não mencionou o esposo. Quando questionei sobre isso, falou: "sou casada com o mesmo homem há 37 anos, profe!" Conheceu o esposo aos 17, foram morar juntos e casaram-se aos 20. Aí vieram os filhos, entre uma briga e outra: "brigávamos, voltávamos e fazíamos um filho...brigávamos, voltávamos e fazíamos um filho". Disse que depois de tanto tempo casada as coisas já não eram como antes, não há "aquela emoção". Nossa conversa chegou até um ponto em que avaliávamos que os sentimentos vão mudando, e que a atual amizade e cumplicidade, a confiança, são também um amor, um amor de outro jeito, mas amor. 
"Meu marido era terrível: saía do serviço na sexta de noite e só aparecia em casa domingo de noite. Bebia e me batia. Hoje já não faz mais isso, não se mete comigo". Eu a questionei sobre qual "reviravolta" a história deles tinha passado para as coisas mudarem assim. Sei que ela trabalha em uma atividade da qual a filha não se orgulha, tampouco ela. Esconde sua fonte de renda, não gosta de expor. É uma atividade lícita, honrosa e importante, mas ela não gosta de mencionar. 
Acredito que a reviravolta seja advinda de sua atividade econômica, sua parcela no orçamento familiar e na aquisição do respeito, por sua independência econômica. Isso não ficou explícito, pois a mesma não menciona sua atividade. Mas creio que esta seja uma razão muito razoável, dada a situação de submissão econômica e social que, muitas mulheres, sofrem pela dependência econômica e afetiva do marido.
Hoje, ao explicar a atividade que trabalharíamos, após breve contato com a tarefa disse: "não vou conseguir fazer isso, profe" Eu a enalteci e disse: "quem tem um casamento de 37 anos, consegue qualquer coisa!" Rimos juntas. E no final da aula ofereceu de presente (sim, foi um enorme presente ouvir isso): "nunca imaginei que faria este tipo de continhas, agora estou aqui fazendo, quarenta anos atrasada!" 
"Nem "atrasada" nem incapaz, minha amiga. Tua presença aqui, na escola, buscando tua mudança é um ato de muita coragem. És mais forte do que imaginas!".
Como eu disse antes: não poupo palavras para agradar ou discordar. As vezes digo o que as pessoas não querem ouvir. Hoje disse o que a pessoa PRECISAVA ouvir. Bem de perto, palavras vindas de quem está nos bastidores da transformação, observando de camarote a história dar mais uma "reviravolta".


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

15/10 DIA DOS PROFESSORES



Nesta data querida quero desejar muitas felicidades e muitos anos de vida aos profissionais que atuam na Educação. Quase uma profissão de risco, atualmente, pelas questões morais que desafiam nossa saúde mental, mas também pelas questões financeiras. Ser professora neste país requer talento, vontade e crença na possibilidade de mudar o futuro. Para ser professora não precisa dom, não precisa vocação. Definitivamente, não se trata de um sacerdócio. Precisa ter cérebro. E com este cérebro, ter vontade de aprender, para assim, poder ensinar. E ter vontade, todos os dias, de se reconstruir, de se reinventar.

E já atuante em Educação, continuo estudando sobre Educação. E sigo me questionando e me abalando com as questões que cercam nossa prática. Como nossa formação segue estanque em um mundo que mudou demais para seguirmos do jeito que sempre foi? Em como não estamos tão dispostos assim a rever e ousar em métodos educacionais e formação de professores que sejam condizentes com os humanos que temos hoje em sala de aula, com muitas outras questões além do currículo que precisamos abordar.

"...em nosso tempo pouco se tem feito para qualificar o professor à altura da complexidade que nos cerca. Há quatro décadas, Anísio expressou sua sincera inquietação. No entanto, temos que dar nossas mãos à palmatória da sua crítica mais veemente, e repetir: “ainda não fizemos em educação o que deveria ser feito para preparar o homem para a época a que foi arrastado...”; “na educação comum do homem comum os progressos são os mais modestos” (SILVA 2018).

Ainda estamos presas, em um curso de graduação, ao preenchimento de planejamentos detalhados que nortearão nossa prática mais do que estabelecida. 
Ainda estamos presas aos domínios da classe dominante. 
Ainda estamos sujeitos aos mandos e desmandos de pessoas que pouco entendem de Educação. Ainda estamos carentes de tantos recursos, desde recursos básicos até os mais urgentes e tecnológicos. 
Ainda somos chamadas de doutrinadoras, contraventoras.
Sim, pouco temos para comemorar. Temos mais a chorar. E o futuro não está sendo muito gentil com nossa profissão, parecendo que estamos à beira de um colapso e geração de uma desigualdade maior ainda do que a que já vivemos.
E, finalmente, hoje não deveria ser o Dia dos Professores. Hoje é o DIA DAS PROFESSORAS. Somos maioria. E isso, deveria ser importante, sim!


Referência

SILVA, Marco. De Anísio Teixeira à cibercultura: desafios para a formação de professores ontem, hoje e amanhã. Boletim Técnico do Senac, v. 29, n. 3, p. 30-41, 2018.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

24/09 OBSERVANDO E PENSANDO

Ontem fui observadora da turma em que atuarei como estagiária. Fui muito bem recebida pela professora titular e pelas alunas presentes. A sensação da observação foi estranha, pois estava naquela sala de aula, de noite, que foi a mesma sala em que eu estava no último período da tarde daquele dia. E observando a sala ali, me dei conta que nem parecia estar no mesmo lugar. 
Ingressei na sala e me acomodei logo atrás de uma aluna, que não pertencia "a turma, estava ali pela ausência da sua professora. Fiquei, por um tempo, olhando, pensando, escutando, imaginando as histórias que me trariam aquelas pessoas com tantas trajetórias de vida. Sei que os alunos das turmas regulares da tarde também têm suas histórias, mas os estudantes da EJA trazem consigo uma bagagem de vivências. 
A professora iniciou a aula conversando sobre assuntos diversos com os alunos, em um clima de espontaneidade. As alunas sentaram-se bem espaçadas, sem modificar a organização das classes das turmas diurnas (fileiras com classes em duplas).  As alunas conversavam entre si sobre o clima, sobre idas à igreja, passeios, etc. Mencionam com certa frequência "Graças a Deus, com a graça de Deus, recebi uma graça". Chamam a professora titular de "sora", " sorinha do meu coração".
A letra utilizada com a turma é script ou bastão. A turma não apresenta uma frequência constante, assim os projetos e trabalhos devem ser iniciados e finalizados no mesmo dia, pois há esta dificuldade na continuidade. As alunas presentes são bastante comunicativas e requisitantes à professora quando apresentam dúvidas. Dos cadernos observados, uma peculiaridade: as alunas não gostam de utilizar o verso das folhas do caderno que já foram escritas. Uma prática usual é o registro no caderno, onde investem grande esmero em realizar as tarefas e mantê-lo completo. Realizar atividades no caderno é uma forma de perceberem que "tiveram aula". E gostam muito desse registro.
De fato, eu não estava no mesmo lugar. Estava no lugar de observação, investigando. E a sala, em si, também não era o mesmo lugar, era um lugar de busca. Uma busca com muita sede e garra de aprender. Com suas dificuldades e histórias, os alunos que estão ali procuram mudança, crescimento e perspectiva de um mundo melhor. Uma sala de aula pode ser muitos lugares ao mesmo tempo.

domingo, 17 de junho de 2018

11/06 "GOSTO TANTO DA SENHORA"


Se fosse sempre possível, escolheria realizar todas as minhas tarefas com amor, com afeto, com atenção ao sentimento alheio. Sei que a maioria dos meus atos não são assim. No atropelo dos nossos prazos e horários, na inconstância dos nossos próprios sentimentos, na pressa pelos resultados e definições, a objetividade e a rispidez podem tomar conta das nossas falas, das nossas atitudes e, principalmente (e egoisticamente) de nossos pensamentos. 

E mesmo que tivesse disponibilidade para sempre escolher o caminho do afeto, pensaria sempre antes de agir assim, descaracterizando o afeto verdadeiro, que prescinde da naturalidade e sintonia entre as pessoas. 

Mas não posso ser assim tão negativa quando recebo, constantemente, manifestações singelas e espontâneas dos meus alunos. Quando o ano letivo já se desenrola e nossos laços já estabelecidos, quando já nos conhecemos, podemos estabelecer relações de afeto verdadeiro, de confiança com os alunos, de acolhida (reciproca). 

Paulo Freire, em seu livro Professora sim, Tia não (1997), afirma a importância dos componentes afetivos e intuitivos na construção do conhecimento. Diz que “...é necessário que evitemos outros medos que o cientificismo nos inoculou.  O medo, por exemplo, de nossos sentimentos, de nossas emoções, de nossos desejos, o medo de que ponham a perder nossa cientificidade. O que eu sei, sei com o meu corpo inteiro: com minha mente crítica, mas também com os meus sentimentos, com minhas intuições, com minhas emoções. O que eu não posso é parar satisfeito ao nível dos sentimentos, das emoções, das intuições. Devo submeter os objetos de minhas intuições a um tratamento sério, rigoroso, mas nunca desprezá-los.” 

Quando o afeto se manifesta na chegada da aula, despretensiosamente, com um abraço e com um “gosto tanto da senhora”, significa que ali o laco está feito, que podemos continuar na mesma vibração. Que em muitos, ou poucos, o afeto chegou e que o trabalho pedagógico pode ter um resultado muito mais satisfatório.

Eu tenho meus escudos naturais contra o afeto desmedido. Confesso que sou muito racional e que gostaria de ser diferente. Eu, ainda, penso se o momento aceita um posicionamento mais afetivo. Eu estou em construção. Mas, acreditem, já melhorei bastante neste quesito e recebo com muito carinho o afeto...o que considero um bom começo neste processo todo.

Com atenção e acolhida, nossa percepção do mundo se torna bem mais otimista e nossos problemas podem (mesmo que por algumas horas) tornarem-se desimportantes para que a aprendizagem flua, se construa. Escola é conhecimento, mas é também amor.



FREIRE, P. Professora sim, tia não: Cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d'água, 1997b.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

30/04 REPLANEJANDO O PLANEJAMENTO

Pensamos em nossas salas de aula como espaços democráticos, que nosso planejamento seja flexível para se adequar às necessidades dos estudantes, organizamos planejamentos que contemplem as necessidades reais e modos de desenvolve-las. 
Aqui, de dentro da Faculdade de Pedagogia, analisamos nossa prática e vemos, na teoria, que a organização do planejamento é mais do que nossa própria organização. É a possibilidade de vislumbrar o andamento lógico da construção dos objetivos que queremos atingir com os alunos, avaliando as possibilidade de retomada, mudanças e adições de novos fatores neste processo. 
Na prática, em nossas salas de aula atuais, reavaliamos nossa prática já usual e percebemos que nossos planejamentos perpassam as questões teóricas relatadas neste texto. As questões subjetivas dos alunos e seus desenvolvimentos são importantes no desenvolvimento de nossos trabalhos. 
Mudei o planejamento que tinha em uma turma para tentar contemplar algumas necessidades bastante evidentes entre os estudantes. Apresentam frequente manifestação de detrimento da própria imagem, de suas habilidades cognitivas ou de suas posições sociais. Possuem desejo de aprender e se manifestar diferentemente, mas retomam o comportamento negativo e reiniciam o ciclo. Estão em pleno processo de autoconhecimento, avançam e retrocedem.
Estou com os olhos e ouvidos atentos para esta turma e procuro atender suas questões que são bastante peculiares. Ainda me falta colocar em prática alguma atividade que organize-os e lhes mostre que estes comportamentos são naturais, mas que já podem iniciar a autoavaliação de suas falas e modificar estes comportamentos. Assim, contribuindo para sua personalidade, sua autoestima e sua autoconfiança.
Estas questões não estão contempladas na minha disciplina. Sou a professora de Ciências deles. Mas creio que eu possa intervir positivamente nesta construção junto aos alunos.
Estou então vivenciando a reformulação, na prática, do meu planejamento.
Há momentos que o conteúdo poderá ficar, em alguns momentos, em segundo plano. Há momentos que os professores precisam sair um pouco de suas caixas.

REFERÊNCIA:
MARTINS, Elizete Ferreira Parnaíba; DANTAS, Maria de Lurdes Quaresma; PINHEIRO, Francimeire Leite. Autoconhecimento e autoestima. Id on Line REVISTA DE PSICOLOGIA, v. 5, n. 15, p. 37-47, 2011.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

16/04 QUEM É VOCÊ

Tenho lido bastante. Muitas leituras que investigam meus questionamentos sobre a questão da identidade ou autoimagem das crianças e adolescentes. Como professora de pré-adolescentes e adolescentes, ouço e vejo, todos os dias, alguns deles manifestando posições negativas sobre suas pessoas. Isso ocorre tanto no sentido físico (corporal) como no sentido intelectual social e no que abrange suas capacidades. Como entusiasta que sou, sempre rebato esses pensamentos. Eles percebem a importância do que falo, mas não se convencem de que a imagem positiva que eu destaco pertença a eles.
Hoje me subsidio no artigo "Desenvolvimento do auto-conceito físico nas crianças e nos adolescentes" (FARIA,2005) onde estas questões são muito bem tratadas e explicadas. Em diversos momentos da leitura identifiquei meus questionamentos e a problemática que identifico entre os alunos.
Percebo que quando se descrevem, muitos jovens trazem indícios que extrapolam suas características físicas, denotando que apresentam um certo amadurecimento que possibilita extrapolarem suas questões descritivas das questões concretas para as questões abstratas também: seu rendimento escolar, ansiedade, resultados nas práticas esportivas e questões familiares. Assim penso que, quando se caracterizam fisicamente negativamente, incluem esses outros fatores em suas descrições, complementando um quadro generalizado de baixa autoestima ou estigmatização. A aparência física, ou domínio físico, é a maior contribuição na definição da auto-imagem nas crianças e adolescentes contribuindo diretamente como fator de ajustamento psicossocial do indivíduo. Posteriormente desenvolvem conceitos em diferentes domínios: como filhos, como alunos, como colegas, namorados, atletas. E depois dessa segmentação inicia-se a formação de um self único, que englobe esses papéis, em um processo de introspecção, questionamentos e formação de hipóteses sobre si mesmos (HARTER, 1993).
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Assim, as questões de participação em modalidades esportivas torna-se um fator bastante forte de investigação entre os alunos, já que não havia antes pensado nesta alternativa de alteração das percepções, ou de constatação de benefícios desse domínio entre adolescentes que não apresentem imagens negativas sobre si mesmos.
O artigo contribui fortemente para minha reflexão de alternativas de mudanças de perspectivas entre esses jovens:
"Portanto, e em síntese, podemos afirmar que quanto mais profundo for o conhecimento do sujeito acerca da sua competência e aparência físicas, mais fácil se torna a auto-avaliação das suas potencialidades e limites, logo, mais fácil se torna a mudança e o reconhecimento do valor pessoal neste domínio: assim sendo, a prática de atividade física pode alterar o auto-conceito físico num sentido positivo, influenciando, neste domínio, a motivação, a persistência e a concretização de objetivos pelos sujeitos". 
Sigo investigando e pensando, pois que o assunto me convida fortemente a refletir diariamente com os alunos. Ter a questão de investigação em frente aos olhos, ao alcance "das mãos" é um tesouro que não pode ser desprezado.



REFERÊNCIAS:
FARIA, Luísa. Desenvolvimento do auto-conceito físico nas crianças e nos adolescentes. Análise Psicológica, v. 23, n. 4, p. 361-371, 2005.
HARTER, S. Self and identity development. In S. Shirley Feldman, & Glenn R. Elliott (Eds.),  At the treshold. The developing adolescent (pp. 352-387). 1993.

sexta-feira, 30 de março de 2018

26/03 EU, MEUS SELFS E MINHA SELFIE

Muitas ideias para colocar em prática e um desejo de ver as coisas acontecerem. Acho que já é um primeiro passo rumo a um trabalho de sucesso, além de ter em mãos um assunto maravilhoso para desenvolver e pesquisar. 
A questão da autoimagem dos adolescentes e todas as transformações que a puberdade lhes traz de novidade é um dos fatores que pode interferir na autoestima e questões de confiança em relação a própria aparência ou o seu valor na sociedade. Esta questão destaco agora em resposta à observação de uma manifestação negativa massiva dos jovens alunos em relação a própria aparência. Certamente é uma fase da vida em que a autoimagem conta muito e pode ser decisiva na postura desses adolescentes em seus meios de convívio.
As questões de investigação se concentram: 
a) em que momento iniciam essa não aceitação da própria aparência;
b) em quais modelos de aparência se embasam para definir seus padrões de "feio" e "bonito";
c) quais fatores familiares/sociais interferem nesta construção da autoimagem nesta fase da vida;
E em uma abrangência maior também considero como ferramentas importantes de investigação:
1) O papel das redes sociais na construção da autoimagem;
2) As diferenças de aceitar ser fotografado e fotografar a própria "selfie"
3) como se autorretratam nas selfies, que pontos de sua imagem destacam neste tipo de fotografias.
Inicialmente colocando as ideias em palavras para tentar organiza-las. Investigando a literatura para embasar esta discussão e enriquecer os pontos de aprofundamento.
Revisitando meus tempos de adolescente e lembrando como era estar nesta fase em que cada olhar alheio sobre nós parece nos arrebatar e destruir tudo o que considerávamos "aceitável" diante dos outros.
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quinta-feira, 22 de março de 2018

19/03 SOU FEIA

See the source imageA inquietação de hoje me preocupa bastante. Como podem, jovens bonitos e saudáveis, dizerem em público "sou feio", "sou feia"?  Minha preocupação vai além da questão estética, obviamente, a qual não tem a menor importância nesta reflexão. Mas olho preocupada para este fato presente na sala de aula em grande quantidade, quando proponho aos alunos que façamos fotos para facilitar a identificação nos conselhos de classe. 
Os alunos apresentaram verdadeira repulsa e argumentaram que não gostam de fotos porque não se acham bonitos, são feios e "o que vocês vão fazer com essas fotos?" Certamente são fotos para utilização pessoal minha em meu ambiente profissional e não consigo encontrar outra utilidade para tal, mas aqui enquanto escrevo penso que podem ter medo de exposição pública e ridicularização. Imaginam que serão expostos e seus "defeitos" ressaltados em alguma observação maldosa. Imagino.
Outra questão que me pergunto é que estes alunos são pré-adolescentes e demonstraram este comportamento coletivamente. Em outra turma de alunos menores (de outro ano/ciclo) esta repulsa não foi observada. Pelo contrário, afetivamente fizemos as fotos e até algumas "selfies" para descontrair. Apresentaram, alguns, a costumeira timidez, mas não foram hostis como os alunos que me preocupam.
Quando as crianças começam a ter estes pensamentos? Por que pensam assim, onde buscam seus referenciais de "bonito" ou "feio"? Como trabalhar a autoestima com estas pessoas que, desde muito jovens, se autodenominam feios e agridem sua própria imagem?
Tentei de diversas maneiras fazer as fotos: individualmente, coletivamente, através de selfies. Todas tentativas frustradas. Ate que resolvi desistir e iniciei a aula. No meio da aula retomei o assunto e conversamos francamente sobre os padrões de beleza, sobre a incessante busca por beleza, sobre o que importa nas pessoas, sobre ser quem se é e aceitar nosso corpo, nossa vida, nossos próprios padrões. 
Conversamos sobre cuidados com o corpo, saúde física e mental, relacionamentos e que não devem aceitar imposições sobre suas características físicas. Que podemos engordar, emagrecer, pintar e cortar o cabelo, mudar o estilo das roupas, mas sempre aceitando quem somos, focando em nossa felicidade.
Fiquei um pouco melancólica pensando em quantas e quantas vezes repetirão esta frase "sou feio, sou feia" e quantas vezes ouvirão de pessoas que querem diminui-los ou machuca-los. 
E também estou pensando em como transformar um pouco esta ideia, elaborando um projeto de identidade, diferenças e valorização da pessoa. 
Espero conseguir colocar em pratica, e tornar a caminhada desta turma cada vez mais bonita!