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domingo, 28 de abril de 2019

29/04 VEM DEBATER COM A GENTE!

Sala de aula é realmente um espaço lindo! Como são valiosos os momentos em que as pessoas "se dão conta" das coisas e levam aquilo consigo, reverberando por muito tempo aquela mensagem que precisa ser mais do que ecoada! Lembrei das escritas sobre preconceito de tempos atrás e de como podemos trabalhar e trazer à luz da reflexão construtiva esta abordagem. Nestas postagens, trabalhava a questão racial e hoje, neste post conto uma daquelas "tomadas de consciência" que aquecem nosso coração professor.
Debatíamos em sala de aula um video da neurocientista Suzana Herculano, que abordava as transformações no cérebro adolescente. Neste debate, veio a questão da preferencia sexual e da opção sexual. Os alunos contribuíram muito na dinâmica da aula e a questão da repressão das opções sexuais veio a tona, pois as pessoas não se sentem "permitidas" por suas questões familiares, religiosas, sociais...enfim, reprimem suas preferências e opções em nome do que a sociedade (ainda, infelizmente) julga como correto. Notei que traziam muitos casos de relato em que a homofobia foi presente na vida deles, e posicionaram-se sobre o preconceito sexual, de gênero, racial, religioso, social, racial.
No final da aula, perceberam como a aula mudou de rumo sem aquele tom "ameaçador" de doutrinação ou lavagem cerebral que muitos temem e imaginam que estes assuntos "polêmicos" possam configurar nas salas de aula. Foi um debate franco e aberto onde todos puderam ser escutados. 
Até que alguém disse "quando a gente fala desses assuntos tabus, quem sente estes preconceitos pode ser escutado. Pode se sentir parte, e dizer que a existência dele ou do jeito que ele é não é um jeito errado, nem proibido, nem ruim...é importante isso, né?"
E a professora, calada, sorri e sente que o rumo da aula, que mudou totalmente, era o rumo que precisava ser tomado. E que cada vez mais venham estas construções despretensiosas e naturais, plenas de significado para alunos e professores.

domingo, 14 de abril de 2019

15/04 FAZENDO ARTE


"Crianças arteiras" são aquelas que se diz "fazem muitas artes", no sentido de peraltices, bagunças. Aquelas que quando fazem silêncio é porque estão "fazendo arte". 
Assim são as crianças daqui de casa, provavelmente são também tantas outras que conhecemos. Fazem coisas "proibidas", descobrem coisas em armários e experimentam sensações que não seriam possíveis diante de nossos olhos cuidadores. Se aventuram em situações que podem colocar em risco sua integridade física, nos trazem joelhos e cotovelos ralados, cabeças com galos, cortes nos dedos. Nos mostram novos cortes de cabelo, unhas finamente decoradas e uma remodelação das próprias roupas. No mais puro sentido, estão "fazendo arte". E neste processo estão crescendo, se desenvolvendo fisicamente e intelectualmente. Experimentam e expressam, sentem e fazem sentir.  
Na arte de seu desenvolvimento, manifestam através de suas habilidades os seus sentimentos e suas emoções. Desenham, pintam, modelam, dançam, cantam, encenam, imitam. Simplesmente surpreendem, simplesmente. Fazem de sua fase da vida, uma obra de arte que precisa ser admirada, protegida e respeitada como legítima e importante. 
Pensar nas crianças como artistas natos é dar-lhes o aval para que criem e deixem toda sua criatividade e expressividade explicar o mundo que estão descobrindo. Que possam, sem padronizações, nos mostrar as possibilidades de entender o mundo.
No sentido contrário, na Educação formal, muitas vezes, encontramos um outro caminho sendo trilhado. Não por falta de vontade ou desejo de uniformizar, as vezes até mesmo por falta de profissionais habilitados para a tarefa. No currículo, Artes é presente quando é viável. Quando não ocorre assim, é um momento de propor atividades diferentes das propostas pelas outras áreas do conhecimento. 
Esta perspectiva, confesso, penso agora com as provocações da disciplina de Artes Visuais e Educação. E repensando, como as propostas são feitas para meus filhos, para meus alunos, para nós mesmas como alunas neste momento ainda. E pensando em como nosso desenvolvimento poderia ter oferecido mais momentos de “arte”. Sabiamente, nossa professora de Artes, Susana Rangel, nos alerta:
Em um contexto mais específico da educação formal, seja da Educação Infantil ao ensino universitário, na maioria das vezes, o ensino de arte e também outras áreas do conhecimento, ao invés de promover ações pedagógicas que levem crianças e adultos ao universo da criação e estruturação da linguagem visual, acaba tolhendo os modos singulares dos alunos entenderem e expressarem suas leituras e relações com o mundo. 

Não se trata, portanto de uma questão ligada somente ao ensino de Artes. Neste momento o enfoque é este, mas a longo prazo e, talvez em tempo de salvarmos nós mesmo de um colapso criativo, talvez essa reflexão seja a chance de mudarmos muitas perspectivas.
Fui por diversos pensamentos neste texto, eu sei. Talvez estivesse pensando artisticamente, ou pensando sobre a liberdade das crianças poderem fazer suas artes. E quando pensarmos nas crianças arteiras, que possamos também pensar nas suas artes. Pensarmos nas crianças que são, na verdade, artistas. E, principalmente, não esqueçamos que podemos também ser adultos arteiros artistas.

DA CUNHA, Susana Rangel Vieira. Como vai a Arte na Educação Infantil? Educação Presente. CEAP, Salvador: v. 56, p. 4-12, 2007.



domingo, 7 de abril de 2019

08/04 AÇÃO PEDAGÓGICA INVISÍVEL

Na escola, seria importante em nossa prática como educadoras, experimentarmos diferentes posições. Sair um pouco da sala de aula e atuar em outros espaços educacionais para compreender a engrenagem que sustenta o processo todo. Muitas vezes estamos em nossa posição de mais conforto, onde atuamos em "nosso chão" e não percebemos o quanto os outros espaços também estão envolvidos.  
No final de 2018 fui convidada pela direção da escola em que trabalho para atuar na Coordenação de Turno. Nunca saí da sala de aula. Sempre estive lá, junto aos alunos. De imediato não dei o meu aceite, pois tenho apego a sala de aula e ao convívio direto com os estudantes. Com um pouco de reflexão o convite foi aceito e o desafio também.
Na coordenação de turno a vivência é outra. A rotina é outra e os alunos são atendidos sob outros aspectos. Alguns alunos tornam-se nossos companheiros frequentes, pela indisciplina ou atrasos constantes. Outros, por apresentarem sempre alguma queixa física. Também lá se conhece mais de perto as famílias. 
Os colegas ausentes por qualquer motivo são repostos por outros colegas através de nosso famoso "bilhetinho" que indica quais turmas têm com ausência de professor. Quando ninguém está disponível, atuamos em sala de aula também. Sem nosso próprio material, sem planejamento específico para a turma, sem conhecer a turma e suas peculiaridades.  
O recreio também é nosso espaço. Nossa presença abranda ânimos mais exaltados e faz companhia para os mais solitários. Os atendimentos de urgência são também resolvidos mais rapidamente assim.  
Mas o que não esperava era ficar tão envolvida pedagogicamente com os alunos. No trato mais próximo, muitas vezes de simples escuta, percebemos que nossa ação pedagógica pode mudar um comportamento que, naquele dia, não condizia com o esperado para a sala de aula. Onde a pedagogia atua na escola? Somente na sala de aula? Somente no ensino e aprendizagem? Nas dificuldades de sala de aula e nas estratégias de planejamento para as diferentes abordagens?
Sim, em tudo isso.
Mas, antes de aceitar o convite consultei uma colega que já atuou no espaço que ocupo hoje. Aposentada agora, falou-me com carinho da coordenação. Com tanto carinho que a conversa foi decisiva para meu aceite positivo. Em sua fala me disse: "a coordenação é uma caixinha de surpresas. Vais ter que resolver muitos problemas, abrandar muitas brigas, ter muita paciência. Mas, acima de tudo, vais escutar muito. Porque, às vezes, só precisam de alguém que os escute, sem julgamentos". 
Ali pude entender o tamanho do desafio. O tamanho da responsabilidade.
Alguns dias deste ano já foram bem difíceis. A dinâmica é muito ativa: praticamente passo em deslocamento dentro da escola o tempo todo. E, neste pouco tempo, já exercitei bastante minha escuta e acolhida, sob um olhar pedagógico. A Pedagogia está na escola toda!   

segunda-feira, 1 de abril de 2019

01/04 AS CORES DO MUNDO

Rosa para meninas, azul para meninos. A coisa ficou preta. Verde de fome. Azul de frio. Branco de medo. Mundo Cor-de Rosa. Entrou no vermelho. Ficou tudo azul.
Comumente as cores podem ser utilizadas em nosso cotidiano para referir sentimentos ou designar especificidades de alguma situação. Algumas vezes essas expressões são carregadas de preconceitos e acabam reforçando situações que buscamos, em um mundo ideal, combater.
A questão que hoje destaco já discuti em outros momentos. Já trabalhamos aqui neste blog com a questão de etnias, gênero, busca por igualdade de oportunidades e direitos e seguimos observando e pensando em meios de seguir no mundo com estes preconceitos, combatendo-os e ensinando para que estes ciclos não se repitam. 
Em uma época em que o conservadorismo sente-se autorizado a multiplicar velhas crenças, velhas ideias e multiplicar o preconceito que já existe enraizado na nossa cultura, lutamos com passos de formiguinha, mas sempre lutando. Não nos cansamos de pensar diferente e elaborar esse pensamento para fora de nossas caixas, extravasando nosso pensar e alcançando o outro, a outra mente, a  outra pessoa. 
Trabalhar com Educação, trabalhar com pessoas, trabalhar com mentes em desenvolvimento é tarefa das mais exaustivas. Não somente pela carga de trabalho que excede, muitas vezes, nosso horário dentro da escola (sim, trabalhamos muito em nossas outras horas diárias). Mas, principalmente pela tarefa que é inerente ao nosso fazer: interagir, questionar, desafiar.
Nesta postagem a escrita foi motivada por um aluno que me apresentou uma nova cor: "a cor de porco". Cor de porco é aquela cor que era conhecida como "cor de pele". Nunca mais vou esquecer da cor de porco. Alguns porcos poderão reivindicar a denominação, pois não se sentem representados pela cor que os denomina. Outros, até gostarão ao saberem que existe uma cor especifica para lhes significar. Antes cor de pele, agora cor de porco. Para mim e para o aluno será assim. Porque, segundo ele, cor de pele "não tem na caixa de lápis". Cada dia seguimos desconstruindo para nos fortalecermos. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

29/03 PIPES OF PEACE

Hoje reinicio este blog com uma motivação especial: iniciar a última etapa da Graduação em Pedagogia a Distância. Paralelamente a estas últimas postagens, que visam fazer uma revisitação, um retrospecto dos aprendizados e aquisição de novos, o Trabalho de Conclusão de Curso precisa ser realizado. De fato, os meses seguintes só me mostram que a carga de trabalho será maior que a usual, assim como a ansiedade e as angústias costumeiras desta etapa.
Hoje, deixar os filhos na escola foi um pouco amedrontador. Hoje, ir trabalhar também foi um pouco mais difícil. Depois do atentado na escola em Suzano, uma ameaça de um ato semelhante nas escolas de Porto Alegre deixou a cidade toda em alerta. Quando o atentado aconteceu em Suzano, a comoção entre alunos e professores foi notória, nos deixando com o sentimento de que "poderia ter sido em qualquer escola". Quando pensamos assim, nos incluímos nas prováveis vítimas, nos colocamos no alvo e passamos a pensar em estratégias de sobrevivência e resgate para uma situação inesperada como esta.
O lugar/ tempo/ estado Escola deixa de ser o local de de vida e sonhos e passa a ser medo. Resistência é uma palavra que não cabe, pois não temos forças para resistir quando a ameaça está conosco, a espreita, esperando o momento oportuno. 
No cenário atual do Brasil, com a violência, intolerância e estímulo ao armamento em evidência, nosso trabalho de luta dentro das escolas passa a ser, além de oferecer condições de aprendizado, convivência saudável e segura, estímulo ao pensar e a autonomia, ainda precisa dar conta de uma luta muito desleal: com os sentimentos que nossos jovens carregam.
Esse embate torna-se desleal pois é, muitas vezes, inacessível, intocável, ou propositalmente incubado pois qualquer pensamento contrario ao senso comum poderia ser rejeitado. Muitas vezes escrevi sobre a autoestima, autoimagem e questões da agressividade na escola. E cada vez mais me convenço de que precisamos investir na saúde emocional destas crianças e jovens. Cada dia mais reclusos em seus próprios pensamentos, muitas vezes equivocados, sem trocas ou perspectivas de diálogo e pensamento crítico da realidade e de suas próprias ideias.Cada dia mais propensos a acreditar na inviabilidade de mudanças, ou na irrelevância da própria vida. Cada dia mais informados sobre superficialidades, sem interagir com a premissa básica do diálogo: o outro. 
Uma juventude que não sabe o valor e o poder que tem. Possuem informações e meios muito mais disponíveis para edificar pensamento realmente transformadores. Ao mesmo tempo, se deixam levar por suas angustias e dores internas, as quais aprisionam, escondem e alimentam. 
É como morrer de inanição em um banquete. Muitos morrem no sentido biológico, outros seguem em vida, mas já mortos.  
Hoje foi difícil ir para a escola. Hoje foi difícil não pensar em Suzano. Lá, não foram 11 mortos. Dois já estavam mortos.
"All round the world
Little children being born to the world
Got to give them all we can till the war is won
Then will the work be done
Help them to learn (help them to learn)
Songs of joy instead of burn, baby, burn, (burn, baby burn)
Let us show them how to play the pipes of peace
Play the pipes of peace"

(Pipes of Peace, Paul McCartney)





sábado, 15 de dezembro de 2018

16/12 OUTRA REALIDADE

Temos, como humanos, a capacidade de abstrair e imaginar. Com certeza, este é um recurso que nos permite, muitas vezes, sobreviver e alternar nossa realidade e espaços/tempos que gostaríamos de estar/viver. No aprendizado também, é assim. Imaginar, brincar, fingir outra realidade ajuda a construir, mesmo que sem os recursos concretos, um aprendizado mais significativo. 
Nesta semana retorno ao brincar (https://mariadalpiva.blogspot.com/2018/05/1405.html), imaginando e jogando, para aprender, para significar, para crescer. Em atividade com os alunos do estágio, brincando com eles, fizemos esta atividade que foi bastante marcante nesta prática do estágio, como meu aprendizado. Foram momentos de muitas risadas, de muita descontração e também de atenção e concentração para vencer os desafios propostos.

Atividade de prática do sistema monetário.
A atividade consistia em uma variedade de produtos que poderiam "comprar" com o dinheiro que possuíam. Este dinheiro era de todos eles, pois eram irmãos. Os pais saíram de férias e eles deveriam administrar os recursos na aquisição dos produtos. O intuito desta estória era envolve-los em um contexto diferente de suas realidades. Neste momento, percebi que assumiram suas posições, e o desenvolvimento da atividade era um misto de realidade e ilusão, trazendo os conhecimentos da atividade para o contexto proposto. Dentre os produtos, haviam itens básicos de alimentação, materiais escolares e produtos de desejo (carro, computador, geladeira, jogo de panelas, roupas, etc). Primeiramente pedi que separassem os produtos que eram mais caros, pois precisariam conversar sobre estes para comprar, pois gastariam uma grande quantia. Depois, foram um a um, adquirindo os produtos e atribuindo a eles as notas necessárias para o valor que custavam. Pensavam bem em qual produto adquirir, quais desejavam: "sempre quis este jogo de panelas", "vamos comprar os alimentos primeiro, pois precisamos segurar a grana até os coroas voltarem". Ao passo que pensavam estas questões, também ream desafiados na questão de identificar os valores, pensar em como compô-los. 
Não temos, naquela turma, filhos com pais que "saíram de férias", tampouco recursos para adquirir aqueles produtos, mesmo que com preços fictícios. Apresentavam dificuldades em relacionar os valores dos produtos aos valores das notas. E com a ajuda dos colegas, iam associando as notas aos montantes que precisavam, para adquirir os produtos desejados. Foi uma atividade de muita troca, de muita observação e prazerosa. Brincando, imaginando e aprendendo...assim crescemos, todos os dias.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

19/11 JOVENS NÃO ADULTOS E ADULTOS NÃO JOVENS.

Na experiência do estágio didático, no qual leciono no turno da noite em uma turma de Jovens e Adultos (EJA), deparei-me com situações bastante diversas daquelas que vivencio nas turmas regulares em que atuo no turno da tarde. O primeiro choque foi quando me vi em uma turma reduzida, mas não por isso, desinteressada. Bastante participativos e atuantes no âmbito de querer seu desenvolvimento e aprendizado, buscando naquelas aulas noturnas uma nova perspectiva ou uma saída para um ciclo que não mais desejam em suas vidas: do fracasso. No texto de hoje mencionarei três alunos: Uma de idade avançada e outros dois adolescentes. Na idade avançada (55 anos), a experiência de vida a traz para a escola em busca de oportunidades que “deixou escapar” ou que “não teve”, lhe foram “tiradas”. Na idade adolescente, a perspectiva é de que sua presença naquela turma é a consequência de atrasos que poderiam, sim, ter sido evitados fossem outros comportamentos, situações ou encaminhamentos dados àqueles jovens.
Nessa diversidade, retorno ao texto em que discutia a situação e caracterização da EJA no Brasil (JOVENS E ADULTOS EM SALA DE AULA). A prática da EJA é, de fato, um modo diferente de atuar, de olhar e de pensar o aprendizado e os próprios alunos. Devemos considerar essa particularidade no processo de ensino, bem como saber avaliar a aprendizagem dos alunos.
É heterogêneo o modo de pensar nessas práticas e focar em objetivos comuns, mas mesmo que estejam ali por trajetórias diferentes, têm metas finais claras e que não esmorecem. Embora o desânimo tome conta, e relatam isso, acreditam que estão onde deveriam estar, fazendo o que deveriam fazer, para seguir em frente e deixar a posição da inércia. “O adulto está inserido no mundo do trabalho e das relações interpessoais de um modo diferente daquele da criança e do adolescente. Traz consigo uma história mais longa (e provavelmente mais complexa) de experiências, conhecimentos acumulados e reflexões sobre o mundo externo, sobre si mesmo e sobre as outras pessoas. Com relação a inserção em situações de aprendizagem, essas peculiaridades da etapa de vida em que se encontra o adulto fazem com que ele traga consigo diferentes habilidades e dificuldades (em comparação com a criança) e, provavelmente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e sobre seus próprios processos de aprendizagem” (OLIVEIRA, 1999). Os jovens que venho convivendo apresentam um olhar mais otimista, mas também trazem consigo uma aura de “cansaço”, ou pela situação ou pela sensação de tempo perdido que já mencionam sentir. “Como o adulto anteriormente descrito, ele é também um excluído da escola, porém geralmente incorporado aos cursos supletivos em fases mais adiantadas da escolaridade, com maiores chances, portanto, de concluir o ensino fundamental ou mesmo o ensino médio. É bem mais ligado ao mundo urbano, envolvido em atividades de trabalho e lazer mais relacionadas com a sociedade letrada, escolarizada e urbana (OLIVEIRA, 1999).
É importante nestes sentimentos, encontrar pontos de acordo para que as aulas sejam voltadas para a aprendizagem deles, em qualquer faixa do desenvolvimento em que se encontrem. Que suas dificuldades sociais, culturais ou biológicas não sejam impedimento neste processo que se direciona para este público. A EJA é um momento oferecido para a educação, é uma oportunidade, um resgate e uma obrigação para com estes cidadãos.

REFERÊNCIA:

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

08/10 BEM DE PERTO

Um dia alguém me disse que eu seria uma ótima psicóloga. Que apenas ao permitir o outro falar, ou ao escutar, já ajudava bastante. Fato é que, numa situação assim não me limito apenas à escuta, mas também faço pequenas intervenções que, nem sempre, são o que as pessoas esperam ouvir. Não meço palavras para agradar, tampouco dar razão para os sentimentos que as pessoas me apresentam, caso eu não concorde. Normalmente respondo com uma pergunta, com uma observação que não fora antes percebida. Acredito que por isso tenham pensado que eu seria uma "ótima psicóloga".
Entre tantas outras observações, um dos fatos que me aproxima muito a Educação de Jovens e Adultos (EJA) é a possibilidade de ter um contato com a vida desses alunos, possibilitando trocas, reflexões. Com crianças isso também aconteceria, mas o contato com adultos traz essa facilidade, empatia e aproximação das realidades. 
Hoje, somente uma aluna compareceu. Ontem não foi à aula, disse-me hoje que faltou porque estava muito cansada. Sentamos e conversamos, começou a contar sobre seus filhos, seus netos. Tem 5 filhos, uma das filhas é também aluna da EJA. Na verdade, o assunto iniciou quando falávamos sobre a falta de água que ocorreu hoje no bairro. Disse-me que desde cedo já faltava, conseguiu guardar água ao notar que se enfraquecia o fluxo. Mencionou tantos aspectos de sua vida: sua casa, a casa dos filhos, os netos, fotos dos netos. Mencionou que ama muito a todos, que são a razão de sua vida, que são lindos. Nessa história não mencionou o esposo. Quando questionei sobre isso, falou: "sou casada com o mesmo homem há 37 anos, profe!" Conheceu o esposo aos 17, foram morar juntos e casaram-se aos 20. Aí vieram os filhos, entre uma briga e outra: "brigávamos, voltávamos e fazíamos um filho...brigávamos, voltávamos e fazíamos um filho". Disse que depois de tanto tempo casada as coisas já não eram como antes, não há "aquela emoção". Nossa conversa chegou até um ponto em que avaliávamos que os sentimentos vão mudando, e que a atual amizade e cumplicidade, a confiança, são também um amor, um amor de outro jeito, mas amor. 
"Meu marido era terrível: saía do serviço na sexta de noite e só aparecia em casa domingo de noite. Bebia e me batia. Hoje já não faz mais isso, não se mete comigo". Eu a questionei sobre qual "reviravolta" a história deles tinha passado para as coisas mudarem assim. Sei que ela trabalha em uma atividade da qual a filha não se orgulha, tampouco ela. Esconde sua fonte de renda, não gosta de expor. É uma atividade lícita, honrosa e importante, mas ela não gosta de mencionar. 
Acredito que a reviravolta seja advinda de sua atividade econômica, sua parcela no orçamento familiar e na aquisição do respeito, por sua independência econômica. Isso não ficou explícito, pois a mesma não menciona sua atividade. Mas creio que esta seja uma razão muito razoável, dada a situação de submissão econômica e social que, muitas mulheres, sofrem pela dependência econômica e afetiva do marido.
Hoje, ao explicar a atividade que trabalharíamos, após breve contato com a tarefa disse: "não vou conseguir fazer isso, profe" Eu a enalteci e disse: "quem tem um casamento de 37 anos, consegue qualquer coisa!" Rimos juntas. E no final da aula ofereceu de presente (sim, foi um enorme presente ouvir isso): "nunca imaginei que faria este tipo de continhas, agora estou aqui fazendo, quarenta anos atrasada!" 
"Nem "atrasada" nem incapaz, minha amiga. Tua presença aqui, na escola, buscando tua mudança é um ato de muita coragem. És mais forte do que imaginas!".
Como eu disse antes: não poupo palavras para agradar ou discordar. As vezes digo o que as pessoas não querem ouvir. Hoje disse o que a pessoa PRECISAVA ouvir. Bem de perto, palavras vindas de quem está nos bastidores da transformação, observando de camarote a história dar mais uma "reviravolta".


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

01/10 A ESTAGIÁRIA EM AÇÃO


Nesta segunda semana de estágio, e de bastante cansaço, e de muitas tarefas pendentes em diversos âmbitos da vida, minha autoestima não é mais a mesma. Neste processo de adquirir uma ocupação extra em minha rotina, a qual não incluo minhas horas de trabalho, aprecio o processo de desestruturação psicológica. Além disso, a conjuntura externa da nossa sociedade não contribui muito para nossa confiança como antes, estamos em franco fogo cruzado de ideias totalmente opostas, conflitantes e que ameaçam uma série de construções que tínhamos como humanos, como cidadãos, como brasileiros.
Mas, ademais estes fatos, nesta semana propus uma atividade para os alunos da turma em que estagio, uma T3 EJA, correspondente ao quarto ano. Nesta atividade, construiriam uma ilustração de um poema do autor que é trabalhada neste ano na escola. Discutimos sobre o conceito de ilustração, modos de ilustrar, materiais diversos que são utilizados e a importância da ilustração em uma obra, complementando o trabalho literário.
A questão é que os alunos, mesmo compreendendo o poema, mesmo conhecendo ilustrações, mesmo imaginando o que gostariam de ilustrar, repetiam diversas vezes: “mas não está bonito”, “mas não sei fazer”, “está bom assim?”. O tempo todo minha posição era de encorajamento, ressaltando que a ilustração era um trabalho muito particular e que não haveria “feio ou bonito”, “certo ou errado”. Naquele momento era cada um expressando seu sentimento sobre o poema através da imagem construída.
Observo que as questões de confiança e apreciação de si mesmo são bastante presentes entre estes alunos, muito mais evidentemente marcantes do que os alunos das turmas regulares, os quais já observava isso. A auto-estima e autoconceito são indubitavelmente um dos assuntos que circundam hoje a educação brasileira. Autoconceito e a auto-estima refere-se à representação da avaliação afetiva que a pessoa tem se suas características em um determinado momento. O autoconceito é a percepção que a pessoa tem de si mesma. Já a auto-estima é a percepção que ela tem do seu próprio valor (ALVES 2009).
Assim, vejo que neste momento posso observar melhor estas questões que cercam a disposição dos alunos para se verem como merecedores de respeito e vitoriosos de ali, naquelas classes à noite, estarem em busca de novos horizontes para si. Tantas histórias os trouxeram e tantas histórias os afastaram da escola. E agora, deveriam ter uma autoimagem muito fortalecida, pois superaram a primeira barreira: estar ali. E não percebem isso, infelizmente.

REFERÊNCIA
ALVES, L. M. S. A. Intervenção psicopedagógica: auto-estima e a dimensão afectiva entre professores e alunos. In: Actas do X Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia. 2009. p. 4486-4496.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

24/09 OBSERVANDO E PENSANDO

Ontem fui observadora da turma em que atuarei como estagiária. Fui muito bem recebida pela professora titular e pelas alunas presentes. A sensação da observação foi estranha, pois estava naquela sala de aula, de noite, que foi a mesma sala em que eu estava no último período da tarde daquele dia. E observando a sala ali, me dei conta que nem parecia estar no mesmo lugar. 
Ingressei na sala e me acomodei logo atrás de uma aluna, que não pertencia "a turma, estava ali pela ausência da sua professora. Fiquei, por um tempo, olhando, pensando, escutando, imaginando as histórias que me trariam aquelas pessoas com tantas trajetórias de vida. Sei que os alunos das turmas regulares da tarde também têm suas histórias, mas os estudantes da EJA trazem consigo uma bagagem de vivências. 
A professora iniciou a aula conversando sobre assuntos diversos com os alunos, em um clima de espontaneidade. As alunas sentaram-se bem espaçadas, sem modificar a organização das classes das turmas diurnas (fileiras com classes em duplas).  As alunas conversavam entre si sobre o clima, sobre idas à igreja, passeios, etc. Mencionam com certa frequência "Graças a Deus, com a graça de Deus, recebi uma graça". Chamam a professora titular de "sora", " sorinha do meu coração".
A letra utilizada com a turma é script ou bastão. A turma não apresenta uma frequência constante, assim os projetos e trabalhos devem ser iniciados e finalizados no mesmo dia, pois há esta dificuldade na continuidade. As alunas presentes são bastante comunicativas e requisitantes à professora quando apresentam dúvidas. Dos cadernos observados, uma peculiaridade: as alunas não gostam de utilizar o verso das folhas do caderno que já foram escritas. Uma prática usual é o registro no caderno, onde investem grande esmero em realizar as tarefas e mantê-lo completo. Realizar atividades no caderno é uma forma de perceberem que "tiveram aula". E gostam muito desse registro.
De fato, eu não estava no mesmo lugar. Estava no lugar de observação, investigando. E a sala, em si, também não era o mesmo lugar, era um lugar de busca. Uma busca com muita sede e garra de aprender. Com suas dificuldades e histórias, os alunos que estão ali procuram mudança, crescimento e perspectiva de um mundo melhor. Uma sala de aula pode ser muitos lugares ao mesmo tempo.

domingo, 17 de junho de 2018

11/06 "GOSTO TANTO DA SENHORA"


Se fosse sempre possível, escolheria realizar todas as minhas tarefas com amor, com afeto, com atenção ao sentimento alheio. Sei que a maioria dos meus atos não são assim. No atropelo dos nossos prazos e horários, na inconstância dos nossos próprios sentimentos, na pressa pelos resultados e definições, a objetividade e a rispidez podem tomar conta das nossas falas, das nossas atitudes e, principalmente (e egoisticamente) de nossos pensamentos. 

E mesmo que tivesse disponibilidade para sempre escolher o caminho do afeto, pensaria sempre antes de agir assim, descaracterizando o afeto verdadeiro, que prescinde da naturalidade e sintonia entre as pessoas. 

Mas não posso ser assim tão negativa quando recebo, constantemente, manifestações singelas e espontâneas dos meus alunos. Quando o ano letivo já se desenrola e nossos laços já estabelecidos, quando já nos conhecemos, podemos estabelecer relações de afeto verdadeiro, de confiança com os alunos, de acolhida (reciproca). 

Paulo Freire, em seu livro Professora sim, Tia não (1997), afirma a importância dos componentes afetivos e intuitivos na construção do conhecimento. Diz que “...é necessário que evitemos outros medos que o cientificismo nos inoculou.  O medo, por exemplo, de nossos sentimentos, de nossas emoções, de nossos desejos, o medo de que ponham a perder nossa cientificidade. O que eu sei, sei com o meu corpo inteiro: com minha mente crítica, mas também com os meus sentimentos, com minhas intuições, com minhas emoções. O que eu não posso é parar satisfeito ao nível dos sentimentos, das emoções, das intuições. Devo submeter os objetos de minhas intuições a um tratamento sério, rigoroso, mas nunca desprezá-los.” 

Quando o afeto se manifesta na chegada da aula, despretensiosamente, com um abraço e com um “gosto tanto da senhora”, significa que ali o laco está feito, que podemos continuar na mesma vibração. Que em muitos, ou poucos, o afeto chegou e que o trabalho pedagógico pode ter um resultado muito mais satisfatório.

Eu tenho meus escudos naturais contra o afeto desmedido. Confesso que sou muito racional e que gostaria de ser diferente. Eu, ainda, penso se o momento aceita um posicionamento mais afetivo. Eu estou em construção. Mas, acreditem, já melhorei bastante neste quesito e recebo com muito carinho o afeto...o que considero um bom começo neste processo todo.

Com atenção e acolhida, nossa percepção do mundo se torna bem mais otimista e nossos problemas podem (mesmo que por algumas horas) tornarem-se desimportantes para que a aprendizagem flua, se construa. Escola é conhecimento, mas é também amor.



FREIRE, P. Professora sim, tia não: Cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d'água, 1997b.