domingo, 7 de abril de 2019

08/04 AÇÃO PEDAGÓGICA INVISÍVEL

Na escola, seria importante em nossa prática como educadoras, experimentarmos diferentes posições. Sair um pouco da sala de aula e atuar em outros espaços educacionais para compreender a engrenagem que sustenta o processo todo. Muitas vezes estamos em nossa posição de mais conforto, onde atuamos em "nosso chão" e não percebemos o quanto os outros espaços também estão envolvidos.  
No final de 2018 fui convidada pela direção da escola em que trabalho para atuar na Coordenação de Turno. Nunca saí da sala de aula. Sempre estive lá, junto aos alunos. De imediato não dei o meu aceite, pois tenho apego a sala de aula e ao convívio direto com os estudantes. Com um pouco de reflexão o convite foi aceito e o desafio também.
Na coordenação de turno a vivência é outra. A rotina é outra e os alunos são atendidos sob outros aspectos. Alguns alunos tornam-se nossos companheiros frequentes, pela indisciplina ou atrasos constantes. Outros, por apresentarem sempre alguma queixa física. Também lá se conhece mais de perto as famílias. 
Os colegas ausentes por qualquer motivo são repostos por outros colegas através de nosso famoso "bilhetinho" que indica quais turmas têm com ausência de professor. Quando ninguém está disponível, atuamos em sala de aula também. Sem nosso próprio material, sem planejamento específico para a turma, sem conhecer a turma e suas peculiaridades.  
O recreio também é nosso espaço. Nossa presença abranda ânimos mais exaltados e faz companhia para os mais solitários. Os atendimentos de urgência são também resolvidos mais rapidamente assim.  
Mas o que não esperava era ficar tão envolvida pedagogicamente com os alunos. No trato mais próximo, muitas vezes de simples escuta, percebemos que nossa ação pedagógica pode mudar um comportamento que, naquele dia, não condizia com o esperado para a sala de aula. Onde a pedagogia atua na escola? Somente na sala de aula? Somente no ensino e aprendizagem? Nas dificuldades de sala de aula e nas estratégias de planejamento para as diferentes abordagens?
Sim, em tudo isso.
Mas, antes de aceitar o convite consultei uma colega que já atuou no espaço que ocupo hoje. Aposentada agora, falou-me com carinho da coordenação. Com tanto carinho que a conversa foi decisiva para meu aceite positivo. Em sua fala me disse: "a coordenação é uma caixinha de surpresas. Vais ter que resolver muitos problemas, abrandar muitas brigas, ter muita paciência. Mas, acima de tudo, vais escutar muito. Porque, às vezes, só precisam de alguém que os escute, sem julgamentos". 
Ali pude entender o tamanho do desafio. O tamanho da responsabilidade.
Alguns dias deste ano já foram bem difíceis. A dinâmica é muito ativa: praticamente passo em deslocamento dentro da escola o tempo todo. E, neste pouco tempo, já exercitei bastante minha escuta e acolhida, sob um olhar pedagógico. A Pedagogia está na escola toda!   

segunda-feira, 1 de abril de 2019

01/04 AS CORES DO MUNDO

Rosa para meninas, azul para meninos. A coisa ficou preta. Verde de fome. Azul de frio. Branco de medo. Mundo Cor-de Rosa. Entrou no vermelho. Ficou tudo azul.
Comumente as cores podem ser utilizadas em nosso cotidiano para referir sentimentos ou designar especificidades de alguma situação. Algumas vezes essas expressões são carregadas de preconceitos e acabam reforçando situações que buscamos, em um mundo ideal, combater.
A questão que hoje destaco já discuti em outros momentos. Já trabalhamos aqui neste blog com a questão de etnias, gênero, busca por igualdade de oportunidades e direitos e seguimos observando e pensando em meios de seguir no mundo com estes preconceitos, combatendo-os e ensinando para que estes ciclos não se repitam. 
Em uma época em que o conservadorismo sente-se autorizado a multiplicar velhas crenças, velhas ideias e multiplicar o preconceito que já existe enraizado na nossa cultura, lutamos com passos de formiguinha, mas sempre lutando. Não nos cansamos de pensar diferente e elaborar esse pensamento para fora de nossas caixas, extravasando nosso pensar e alcançando o outro, a outra mente, a  outra pessoa. 
Trabalhar com Educação, trabalhar com pessoas, trabalhar com mentes em desenvolvimento é tarefa das mais exaustivas. Não somente pela carga de trabalho que excede, muitas vezes, nosso horário dentro da escola (sim, trabalhamos muito em nossas outras horas diárias). Mas, principalmente pela tarefa que é inerente ao nosso fazer: interagir, questionar, desafiar.
Nesta postagem a escrita foi motivada por um aluno que me apresentou uma nova cor: "a cor de porco". Cor de porco é aquela cor que era conhecida como "cor de pele". Nunca mais vou esquecer da cor de porco. Alguns porcos poderão reivindicar a denominação, pois não se sentem representados pela cor que os denomina. Outros, até gostarão ao saberem que existe uma cor especifica para lhes significar. Antes cor de pele, agora cor de porco. Para mim e para o aluno será assim. Porque, segundo ele, cor de pele "não tem na caixa de lápis". Cada dia seguimos desconstruindo para nos fortalecermos. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

29/03 PIPES OF PEACE

Hoje reinicio este blog com uma motivação especial: iniciar a última etapa da Graduação em Pedagogia a Distância. Paralelamente a estas últimas postagens, que visam fazer uma revisitação, um retrospecto dos aprendizados e aquisição de novos, o Trabalho de Conclusão de Curso precisa ser realizado. De fato, os meses seguintes só me mostram que a carga de trabalho será maior que a usual, assim como a ansiedade e as angústias costumeiras desta etapa.
Hoje, deixar os filhos na escola foi um pouco amedrontador. Hoje, ir trabalhar também foi um pouco mais difícil. Depois do atentado na escola em Suzano, uma ameaça de um ato semelhante nas escolas de Porto Alegre deixou a cidade toda em alerta. Quando o atentado aconteceu em Suzano, a comoção entre alunos e professores foi notória, nos deixando com o sentimento de que "poderia ter sido em qualquer escola". Quando pensamos assim, nos incluímos nas prováveis vítimas, nos colocamos no alvo e passamos a pensar em estratégias de sobrevivência e resgate para uma situação inesperada como esta.
O lugar/ tempo/ estado Escola deixa de ser o local de de vida e sonhos e passa a ser medo. Resistência é uma palavra que não cabe, pois não temos forças para resistir quando a ameaça está conosco, a espreita, esperando o momento oportuno. 
No cenário atual do Brasil, com a violência, intolerância e estímulo ao armamento em evidência, nosso trabalho de luta dentro das escolas passa a ser, além de oferecer condições de aprendizado, convivência saudável e segura, estímulo ao pensar e a autonomia, ainda precisa dar conta de uma luta muito desleal: com os sentimentos que nossos jovens carregam.
Esse embate torna-se desleal pois é, muitas vezes, inacessível, intocável, ou propositalmente incubado pois qualquer pensamento contrario ao senso comum poderia ser rejeitado. Muitas vezes escrevi sobre a autoestima, autoimagem e questões da agressividade na escola. E cada vez mais me convenço de que precisamos investir na saúde emocional destas crianças e jovens. Cada dia mais reclusos em seus próprios pensamentos, muitas vezes equivocados, sem trocas ou perspectivas de diálogo e pensamento crítico da realidade e de suas próprias ideias.Cada dia mais propensos a acreditar na inviabilidade de mudanças, ou na irrelevância da própria vida. Cada dia mais informados sobre superficialidades, sem interagir com a premissa básica do diálogo: o outro. 
Uma juventude que não sabe o valor e o poder que tem. Possuem informações e meios muito mais disponíveis para edificar pensamento realmente transformadores. Ao mesmo tempo, se deixam levar por suas angustias e dores internas, as quais aprisionam, escondem e alimentam. 
É como morrer de inanição em um banquete. Muitos morrem no sentido biológico, outros seguem em vida, mas já mortos.  
Hoje foi difícil ir para a escola. Hoje foi difícil não pensar em Suzano. Lá, não foram 11 mortos. Dois já estavam mortos.
"All round the world
Little children being born to the world
Got to give them all we can till the war is won
Then will the work be done
Help them to learn (help them to learn)
Songs of joy instead of burn, baby, burn, (burn, baby burn)
Let us show them how to play the pipes of peace
Play the pipes of peace"

(Pipes of Peace, Paul McCartney)





sábado, 15 de dezembro de 2018

16/12 OUTRA REALIDADE

Temos, como humanos, a capacidade de abstrair e imaginar. Com certeza, este é um recurso que nos permite, muitas vezes, sobreviver e alternar nossa realidade e espaços/tempos que gostaríamos de estar/viver. No aprendizado também, é assim. Imaginar, brincar, fingir outra realidade ajuda a construir, mesmo que sem os recursos concretos, um aprendizado mais significativo. 
Nesta semana retorno ao brincar (https://mariadalpiva.blogspot.com/2018/05/1405.html), imaginando e jogando, para aprender, para significar, para crescer. Em atividade com os alunos do estágio, brincando com eles, fizemos esta atividade que foi bastante marcante nesta prática do estágio, como meu aprendizado. Foram momentos de muitas risadas, de muita descontração e também de atenção e concentração para vencer os desafios propostos.

Atividade de prática do sistema monetário.
A atividade consistia em uma variedade de produtos que poderiam "comprar" com o dinheiro que possuíam. Este dinheiro era de todos eles, pois eram irmãos. Os pais saíram de férias e eles deveriam administrar os recursos na aquisição dos produtos. O intuito desta estória era envolve-los em um contexto diferente de suas realidades. Neste momento, percebi que assumiram suas posições, e o desenvolvimento da atividade era um misto de realidade e ilusão, trazendo os conhecimentos da atividade para o contexto proposto. Dentre os produtos, haviam itens básicos de alimentação, materiais escolares e produtos de desejo (carro, computador, geladeira, jogo de panelas, roupas, etc). Primeiramente pedi que separassem os produtos que eram mais caros, pois precisariam conversar sobre estes para comprar, pois gastariam uma grande quantia. Depois, foram um a um, adquirindo os produtos e atribuindo a eles as notas necessárias para o valor que custavam. Pensavam bem em qual produto adquirir, quais desejavam: "sempre quis este jogo de panelas", "vamos comprar os alimentos primeiro, pois precisamos segurar a grana até os coroas voltarem". Ao passo que pensavam estas questões, também ream desafiados na questão de identificar os valores, pensar em como compô-los. 
Não temos, naquela turma, filhos com pais que "saíram de férias", tampouco recursos para adquirir aqueles produtos, mesmo que com preços fictícios. Apresentavam dificuldades em relacionar os valores dos produtos aos valores das notas. E com a ajuda dos colegas, iam associando as notas aos montantes que precisavam, para adquirir os produtos desejados. Foi uma atividade de muita troca, de muita observação e prazerosa. Brincando, imaginando e aprendendo...assim crescemos, todos os dias.

15/12 EJA AMEAÇADA

A gestão atual da Prefeitura de Porto Alegre tenta, de muitas maneiras, desestruturar a organização da Rede Municipal de Ensino. Esta rede construída e pensada, que ja foi considerada uma das melhores do país, hoje sofre com constantes ameaças e desmontes, trazendo angústia para os servidores, para a comunidade, para a Educação.
Hoje escrevo de um lugar que observa, dia a dia, as mudanças que a  educação de jovens e adultos (EJA) pode sofrer: de dentro da sala de aula. No estágio pedagógico, atuo em uma turma de EJA, totalidade 3. Mas nas noites de quinta-feira, as turmas das totalidades 1 e 2 são unidas com a turma em que atuo. Assim, fico com as três turmas, lidando com os diferentes níveis de aprendizagem que são, nestes alunos, muito discrepantes. Além disso, temos um público com alguns casos de deficiências, o que requereria um pouco mais de atenção a estes alunos para atender suas necessidades.
E, justamente neste momento, muitas escolas sentem que podem ter redução de turmas, redução de professores, e um detrimento do trabalho pedagógico que é feito com estes alunos que já apresentam tantas especificidades sociais e educacionais.
Nesta semana de rematrículas nas escolas municipais, nossa expectativa por ter conosco nossos alunos, garantir-lhes este serviço tão importante com qualidade e proximidade de suas casas, demarcam um tempo que não gostaríamos de viver: o da incerteza.
Estamos mobilizados e preocupados. Estamos inseguros e esperançosos. Estamos com os olhos no desenvolvimento dos alunos e no desmonte de nossas condições de trabalho. Enfim, atualmente, ser servidor municipal, professor, lá na sala de aula, é ter os pensamentos tomados pela constante dualidade e incerteza. Neste aprendizado do estagio, vivencio o que é trabalhar com esta modalidade de ensino. Teoria e prática, estudos e experiências passadas anteriormente, se mostram nessa prática em muitos aspectos (https://mariadalpiva.blogspot.com/2018/05/0705-jovens-e-adultos-em-sala-de-aula.html, https://mariadalpiva.blogspot.com/2018/04/0204-revisitando-o-passado.html, https://mariadalpiva.blogspot.com/2017/11/um-fenomeno.html, https://mariadalpiva.blogspot.com/2017/07/finalizando-o-semestre.html).
O que eu não esperava e lamento, é nesta vivência, provar a preocupação que os professores da EJA vivem. E, mais importante, temer pelo futuro desses alunos, que já carrego comigo com afeto e pensamentos desejosos de um futuro melhor.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

19/11 JOVENS NÃO ADULTOS E ADULTOS NÃO JOVENS.

Na experiência do estágio didático, no qual leciono no turno da noite em uma turma de Jovens e Adultos (EJA), deparei-me com situações bastante diversas daquelas que vivencio nas turmas regulares em que atuo no turno da tarde. O primeiro choque foi quando me vi em uma turma reduzida, mas não por isso, desinteressada. Bastante participativos e atuantes no âmbito de querer seu desenvolvimento e aprendizado, buscando naquelas aulas noturnas uma nova perspectiva ou uma saída para um ciclo que não mais desejam em suas vidas: do fracasso. No texto de hoje mencionarei três alunos: Uma de idade avançada e outros dois adolescentes. Na idade avançada (55 anos), a experiência de vida a traz para a escola em busca de oportunidades que “deixou escapar” ou que “não teve”, lhe foram “tiradas”. Na idade adolescente, a perspectiva é de que sua presença naquela turma é a consequência de atrasos que poderiam, sim, ter sido evitados fossem outros comportamentos, situações ou encaminhamentos dados àqueles jovens.
Nessa diversidade, retorno ao texto em que discutia a situação e caracterização da EJA no Brasil (JOVENS E ADULTOS EM SALA DE AULA). A prática da EJA é, de fato, um modo diferente de atuar, de olhar e de pensar o aprendizado e os próprios alunos. Devemos considerar essa particularidade no processo de ensino, bem como saber avaliar a aprendizagem dos alunos.
É heterogêneo o modo de pensar nessas práticas e focar em objetivos comuns, mas mesmo que estejam ali por trajetórias diferentes, têm metas finais claras e que não esmorecem. Embora o desânimo tome conta, e relatam isso, acreditam que estão onde deveriam estar, fazendo o que deveriam fazer, para seguir em frente e deixar a posição da inércia. “O adulto está inserido no mundo do trabalho e das relações interpessoais de um modo diferente daquele da criança e do adolescente. Traz consigo uma história mais longa (e provavelmente mais complexa) de experiências, conhecimentos acumulados e reflexões sobre o mundo externo, sobre si mesmo e sobre as outras pessoas. Com relação a inserção em situações de aprendizagem, essas peculiaridades da etapa de vida em que se encontra o adulto fazem com que ele traga consigo diferentes habilidades e dificuldades (em comparação com a criança) e, provavelmente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e sobre seus próprios processos de aprendizagem” (OLIVEIRA, 1999). Os jovens que venho convivendo apresentam um olhar mais otimista, mas também trazem consigo uma aura de “cansaço”, ou pela situação ou pela sensação de tempo perdido que já mencionam sentir. “Como o adulto anteriormente descrito, ele é também um excluído da escola, porém geralmente incorporado aos cursos supletivos em fases mais adiantadas da escolaridade, com maiores chances, portanto, de concluir o ensino fundamental ou mesmo o ensino médio. É bem mais ligado ao mundo urbano, envolvido em atividades de trabalho e lazer mais relacionadas com a sociedade letrada, escolarizada e urbana (OLIVEIRA, 1999).
É importante nestes sentimentos, encontrar pontos de acordo para que as aulas sejam voltadas para a aprendizagem deles, em qualquer faixa do desenvolvimento em que se encontrem. Que suas dificuldades sociais, culturais ou biológicas não sejam impedimento neste processo que se direciona para este público. A EJA é um momento oferecido para a educação, é uma oportunidade, um resgate e uma obrigação para com estes cidadãos.

REFERÊNCIA:

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

08/10 BEM DE PERTO

Um dia alguém me disse que eu seria uma ótima psicóloga. Que apenas ao permitir o outro falar, ou ao escutar, já ajudava bastante. Fato é que, numa situação assim não me limito apenas à escuta, mas também faço pequenas intervenções que, nem sempre, são o que as pessoas esperam ouvir. Não meço palavras para agradar, tampouco dar razão para os sentimentos que as pessoas me apresentam, caso eu não concorde. Normalmente respondo com uma pergunta, com uma observação que não fora antes percebida. Acredito que por isso tenham pensado que eu seria uma "ótima psicóloga".
Entre tantas outras observações, um dos fatos que me aproxima muito a Educação de Jovens e Adultos (EJA) é a possibilidade de ter um contato com a vida desses alunos, possibilitando trocas, reflexões. Com crianças isso também aconteceria, mas o contato com adultos traz essa facilidade, empatia e aproximação das realidades. 
Hoje, somente uma aluna compareceu. Ontem não foi à aula, disse-me hoje que faltou porque estava muito cansada. Sentamos e conversamos, começou a contar sobre seus filhos, seus netos. Tem 5 filhos, uma das filhas é também aluna da EJA. Na verdade, o assunto iniciou quando falávamos sobre a falta de água que ocorreu hoje no bairro. Disse-me que desde cedo já faltava, conseguiu guardar água ao notar que se enfraquecia o fluxo. Mencionou tantos aspectos de sua vida: sua casa, a casa dos filhos, os netos, fotos dos netos. Mencionou que ama muito a todos, que são a razão de sua vida, que são lindos. Nessa história não mencionou o esposo. Quando questionei sobre isso, falou: "sou casada com o mesmo homem há 37 anos, profe!" Conheceu o esposo aos 17, foram morar juntos e casaram-se aos 20. Aí vieram os filhos, entre uma briga e outra: "brigávamos, voltávamos e fazíamos um filho...brigávamos, voltávamos e fazíamos um filho". Disse que depois de tanto tempo casada as coisas já não eram como antes, não há "aquela emoção". Nossa conversa chegou até um ponto em que avaliávamos que os sentimentos vão mudando, e que a atual amizade e cumplicidade, a confiança, são também um amor, um amor de outro jeito, mas amor. 
"Meu marido era terrível: saía do serviço na sexta de noite e só aparecia em casa domingo de noite. Bebia e me batia. Hoje já não faz mais isso, não se mete comigo". Eu a questionei sobre qual "reviravolta" a história deles tinha passado para as coisas mudarem assim. Sei que ela trabalha em uma atividade da qual a filha não se orgulha, tampouco ela. Esconde sua fonte de renda, não gosta de expor. É uma atividade lícita, honrosa e importante, mas ela não gosta de mencionar. 
Acredito que a reviravolta seja advinda de sua atividade econômica, sua parcela no orçamento familiar e na aquisição do respeito, por sua independência econômica. Isso não ficou explícito, pois a mesma não menciona sua atividade. Mas creio que esta seja uma razão muito razoável, dada a situação de submissão econômica e social que, muitas mulheres, sofrem pela dependência econômica e afetiva do marido.
Hoje, ao explicar a atividade que trabalharíamos, após breve contato com a tarefa disse: "não vou conseguir fazer isso, profe" Eu a enalteci e disse: "quem tem um casamento de 37 anos, consegue qualquer coisa!" Rimos juntas. E no final da aula ofereceu de presente (sim, foi um enorme presente ouvir isso): "nunca imaginei que faria este tipo de continhas, agora estou aqui fazendo, quarenta anos atrasada!" 
"Nem "atrasada" nem incapaz, minha amiga. Tua presença aqui, na escola, buscando tua mudança é um ato de muita coragem. És mais forte do que imaginas!".
Como eu disse antes: não poupo palavras para agradar ou discordar. As vezes digo o que as pessoas não querem ouvir. Hoje disse o que a pessoa PRECISAVA ouvir. Bem de perto, palavras vindas de quem está nos bastidores da transformação, observando de camarote a história dar mais uma "reviravolta".